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Paraíso Paticular

Quero ter uma casa não muito grande com ele dentro, uma casa cheia das nossas marcas e dos nossos cheiros e costumes. Nossa pia da cozinha será cheia de marcas, por conta das inúmeras vezes em que nossos beijos nós farão esquecer a panela quente sobre a pia.  Da sua avó ganharemos aquela colher de pau que desde pequeno você se lambuza todo ao comer brigadeiro, essa colher tão velha virará apenas mais um artifícios para rirmos e nos sujarmos ainda mais toda vez em que fomos preparar alguma comida juntos. Colecionarei vasos por conta da sua mania de me mimar diariamente com flores, já você colecionará casacos já que não consigo não deixarei meu instinto materno agir sobre você. Nossa casa vai ser branca com janelas vermelhas com persianas azul, por fora nada diferente das outras casas do bairro, entretanto por dentro intensas cores marcaram todas as paredes e assim mostraram como nunca concordaremos em nada, e que a única coisa que combinará em nós dois será nossa extrema euforia de estarmos juntos em nosso lar. 

Nosso quarto terá uma cama simples, porém muito confortável. Por conta da sua mania de sempre me jogar nela, a mesma sempre estará bagunçada, já que pelo visto você terá um fetiche incontrolável que te acará toda vez que me ver dobrando os lençóis, e tentando em vão arrumar nossa zona da noite anterior. Nunca deixarei você pensar em colocar uma televisão no nosso quarto, porque qual a função de uma televisão no quarto de duas pessoas que se amaram tanto? Não terei nenhum pijama, por conta disso você terá milhões de camisetas de todos os tipos, apenas terei sempre guardada aquela sua lingerie preferida, para os dias que você chegar cansado do trabalho e irritado com a sua estagiária, no qual sem motivo algum morrerei de ciúmes. As paredes do quarto terão declarações minhas e suas, um te amo bem grande será escrito na parede branca de frente para cama no dia que você tiver saído mais cedo para correr no parque com nosso cachorro, essa declaração estará escrita em linhas tortas, mas sempre me farão sorrir e me impedir de dormir brigada ou irritada. As outras três paredes estarão lotadas de textos ou apenas frases bonitas que já escrevemos um para o outro pela simples vontade que sempre teremos de demonstrar o que sentiremos, esse será o ponto alto da decoração tão espontânea e autêntica do nosso quarto, nosso amor tão incontrolável.  


O escritório servirá para guardarmos todos meus livros e os seus gibis, nosso gato vai ser o único ser da casa que gostará de viver naquele lugar, mas ali se tornará meu cantinho quando estiver a fim de ficar sozinha com meus pensamentos. O banheiro será o lugar onde dividiremos o máximo da nossa privacidade ou falta dela, o lugar onde tomarei banho dobrado todos os dias, por conta do meu vício em não conseguir não me enrolar no seu corpo nu e por ter tanto ciúmes da água escorrendo por todo seu corpo que já vai ser tão meu. Nossas escovas inconscientemente sempre se enroscaram daquela forma indecente, que adoraremos nos enroscar um no corpo do outro quando estivermos em casa. Pode parecer nojento, mas nossas escovas apenas servirão para mostrar como nenhuma parte do meu ser conseguirá resistir ao incrível odor vindo da sua boca.

Nossa sala o lugar em que ficaremos mais tempo juntos e juntos de nossos amigos e familiares, que escolherão nosso lar como o segundo lar deles. Ela terá uma imensa televisão por conta da sua mania e dos nossos amigos em se reunir no fim de semana para ver jogo ou ficarem iguais garotos de 10 anos jogando videogame, um sofá confortável que não combinará com as duas poltronas laterais, mas nenhum de nós dois nunca dará muita atenção para as poltronas, que só serão ocupadas ou pelo nosso gato ou por visitas, já que nosso tapete será a cama do nosso cachorro.  O sofá vai ser um presente da minha mãe e caberá nos dois juntos enroscados daquele jeito confortável só nosso e ele terá apenas um coberto fino para cobrir nossos corpos em dias de frio muito intenso, naqueles dias em que você tanto amará e eu odiarei pelo fato de ainda estarmos usando um fino cobertor.  A sala de jantar terá apenas uma mesa com nenhuma cadeira combinando com a outra cadeira, isso acontecerá por conta da nossa mania de não concordarmos em nenhuma decoração que não seja a do nosso quarto, no final das contas a mesa só servirá para jogarmos cartas com nossos amigos nas sextas-feiras à noite, ou para nós amarmos um pouco mais quanto nossos animais estiverem no veterinário.



Sim, teremos uma lavanderia muito pequena e que só servirá para desfrutarmos de todo amor um do outro em cima da nossa velha maquina de lavar, e onde deixaremos os potes com a comida do nosso gato e do nosso cachorro. Você para provar ser meu extremo oposto, não gostará de silencio e só poderei ler meus livros naqueles dias em que você ficar até mais tarde no trabalho, músicas ocuparam todos os minutos do dia enquanto você estiver em casa, teremos também um monte daqueles filmes que você baixou e gravou em DVDs. Por conta do meu sonho não realizado de ser fotografa, teremos fotos nossas espalhadas por todo canto da casa, fotos jogadas, coladas, guardas, expostas, mofadas todo tipo de fotos, a maioria flagrante de você dormindo, sorrindo, me maltratando com cócegas enquanto em vão eu ainda tentava focalizar seu sorriso como sempre tão natural. Algumas horríveis fotos minhas ficaram no seu celular e na sua mesa do escritório.  

Nossa casa ficará um bairro animado, onde a vida noturna vai ser intensa, por conta disso não teremos garagem nem varanda ou quintal, mas os filhos ainda não terão nascidos para termos que nós preocupar com isso. Apenas eu, você, nosso gato e nosso cachorro vivendo naquela linda casa branca de persianas azuis, numa tranquila rua sem saída de um bairro extremamente agitado. E essa será a casa dos meus sonhos, a casa do nosso paraíso particular. 


Mariana Vieira Galvão de Oliveira.

Nosso Antigo Clima



No começo a falta de calor era pior, eu me via perguntando a todo o momento internamente porque não podia mais falar com você, queria apenas que como naquele verão você beijasse a minha testa e me tranquilizasse, mas a areia já não estava mais ao alcance dos meus pés. Como sempre mesmo já tendo acabado, você e todo nosso grande sentimento ainda me consumiam, mesmo não estando mais perto de ti, nosso amor ainda me engolia a cada minuto tão forte como no dia que trocamos aquele tão simples olhar, o dia que nossas pálpebras não queriam se fechar, com certeza você ainda se lembra, chegamos a lacrimejar de uma dor tão feliz e eufórica. A chama ainda estava azul de tão quente dentro de mim.
Mesmo eu jogando areia a cada hora que emergia em meus pensamentos nos dois, a areia parecia apenas aquecer os meus pensamentos, os buracos pareciam não ter fim e quanto mais areia eu jogava num pensamento meu tentando te esquecer, outro buraco automaticamente surgia ainda mais fundo e mais repleto com nossos felizes momentos juntos. Quando não era outro buraco surgindo, o tão terrível vento aparecia e servia apenas para consumir todos meus grãos de areia e jogar todo meu falho esforço pelos ares, não demorava muito para eu voltar a dialogar comigo mesma os prós e os contras de nosso relacionamento. 

Já havia feito esse cansativo e doloroso exercício de jogar areia e fazer buracos inúmeras vezes, como sempre por conta de nossas tão irrelevantes brigas, eram tantas que eu nem ao mesmo não cogitava que aquele vento quente não apareceria nem ao menos como aquela amável brisa. A brisa que acariciava e me abraçar forte me acalmando em mais uma típica noite do nosso verão. Esperei por horas, dias, meses e as ondas do meu celular não se mexiam mais, nele nenhum notícia sobre os fortes ventos que sempre voltavam a me procurar depois de um certo tempo.


Irritada tirei sozinha toda areia dos meus pensamentos, com o celular na mão decidi partir para o Norte atrás da minha massa de ar, com a internet ligada procurei por todos os cantos inimagináveis, parecia que quanto mais ao norte eu viajava mais ao sul as fortes massas de ar se deslocavam e aquilo não fazia sentido para minha dinâmica climática, os meu desejoso vento parecia dessa vez estar fugindo de mim.

Então cansada resolvi descansar debaixo daquela árvore onde você e eu planejamos tantas vezes nosso futuro, lembra? Nossos filhos iriam aprender a viver debaixo daquela árvore, assim como nós dois aprendemos juntos. Numa manhã fria uma forte brisa me acordou, primeiramente respirei tentado a colocar por inteira dentro de mim, ela tinha que ser minha novamente. Porém a brisa dessa vez era diferente, ela estava fria e não me aquecia em mais nada, minhas pálpebras queriam se manter fechadas não acreditando o quanto a brisa estava me punindo por todos nossos erros, meus beijos já não adiantavam de nada, então me desesperei. A brisa logo se tornou num vento destruidor, ele começou a me ferir de dentro para fora, me jogava areia na face machucando minhas pálpebras ainda fechadas tentando em vão se proteger ou fingir que tudo não passava de um pesado, mas dessa vez era real.



Foi depois de alguns minutos que percebi que o inverno havia chegado, junto com ele veio os ventos frios que sobravam e compactavam meus buracos automaticamente com areia, naquele momento até mesmo o nosso mar parecia me julgar. Demorou, mas com o tempo acostumei a ausência daquela tão tranquilizadora e amável brisa, que sempre estará muito bem guardada na minha mente, não quero nunca pensar nela de um jeito triste, mas também não quero mais depender dela como dependia antigamente. O problema do verão é que ele nunca irá durar para sempre, entretanto agora a primavera está chegando e brisas diferentes se aproximam, mas nenhum chegará ao nível daquela quentura, maciez e amor daquela brisa do nosso verão. Foi um verão longo e duradouro, mais o inverno foi ainda pior. Por isso não me julgue agora que a primavera está chegando.

Mariana Vieira Galvão.
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