Nosso Antigo Clima



No começo a falta de calor era pior, eu me via perguntando a todo o momento internamente porque não podia mais falar com você, queria apenas que como naquele verão você beijasse a minha testa e me tranquilizasse, mas a areia já não estava mais ao alcance dos meus pés. Como sempre mesmo já tendo acabado, você e todo nosso grande sentimento ainda me consumiam, mesmo não estando mais perto de ti, nosso amor ainda me engolia a cada minuto tão forte como no dia que trocamos aquele tão simples olhar, o dia que nossas pálpebras não queriam se fechar, com certeza você ainda se lembra, chegamos a lacrimejar de uma dor tão feliz e eufórica. A chama ainda estava azul de tão quente dentro de mim.
Mesmo eu jogando areia a cada hora que emergia em meus pensamentos nos dois, a areia parecia apenas aquecer os meus pensamentos, os buracos pareciam não ter fim e quanto mais areia eu jogava num pensamento meu tentando te esquecer, outro buraco automaticamente surgia ainda mais fundo e mais repleto com nossos felizes momentos juntos. Quando não era outro buraco surgindo, o tão terrível vento aparecia e servia apenas para consumir todos meus grãos de areia e jogar todo meu falho esforço pelos ares, não demorava muito para eu voltar a dialogar comigo mesma os prós e os contras de nosso relacionamento. 

Já havia feito esse cansativo e doloroso exercício de jogar areia e fazer buracos inúmeras vezes, como sempre por conta de nossas tão irrelevantes brigas, eram tantas que eu nem ao mesmo não cogitava que aquele vento quente não apareceria nem ao menos como aquela amável brisa. A brisa que acariciava e me abraçar forte me acalmando em mais uma típica noite do nosso verão. Esperei por horas, dias, meses e as ondas do meu celular não se mexiam mais, nele nenhum notícia sobre os fortes ventos que sempre voltavam a me procurar depois de um certo tempo.


Irritada tirei sozinha toda areia dos meus pensamentos, com o celular na mão decidi partir para o Norte atrás da minha massa de ar, com a internet ligada procurei por todos os cantos inimagináveis, parecia que quanto mais ao norte eu viajava mais ao sul as fortes massas de ar se deslocavam e aquilo não fazia sentido para minha dinâmica climática, os meu desejoso vento parecia dessa vez estar fugindo de mim.

Então cansada resolvi descansar debaixo daquela árvore onde você e eu planejamos tantas vezes nosso futuro, lembra? Nossos filhos iriam aprender a viver debaixo daquela árvore, assim como nós dois aprendemos juntos. Numa manhã fria uma forte brisa me acordou, primeiramente respirei tentado a colocar por inteira dentro de mim, ela tinha que ser minha novamente. Porém a brisa dessa vez era diferente, ela estava fria e não me aquecia em mais nada, minhas pálpebras queriam se manter fechadas não acreditando o quanto a brisa estava me punindo por todos nossos erros, meus beijos já não adiantavam de nada, então me desesperei. A brisa logo se tornou num vento destruidor, ele começou a me ferir de dentro para fora, me jogava areia na face machucando minhas pálpebras ainda fechadas tentando em vão se proteger ou fingir que tudo não passava de um pesado, mas dessa vez era real.



Foi depois de alguns minutos que percebi que o inverno havia chegado, junto com ele veio os ventos frios que sobravam e compactavam meus buracos automaticamente com areia, naquele momento até mesmo o nosso mar parecia me julgar. Demorou, mas com o tempo acostumei a ausência daquela tão tranquilizadora e amável brisa, que sempre estará muito bem guardada na minha mente, não quero nunca pensar nela de um jeito triste, mas também não quero mais depender dela como dependia antigamente. O problema do verão é que ele nunca irá durar para sempre, entretanto agora a primavera está chegando e brisas diferentes se aproximam, mas nenhum chegará ao nível daquela quentura, maciez e amor daquela brisa do nosso verão. Foi um verão longo e duradouro, mais o inverno foi ainda pior. Por isso não me julgue agora que a primavera está chegando.

Mariana Vieira Galvão.

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